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"O Menino do Pijama Listrado" é uma emocionante história escrita por John Boyne e adaptada para o cinema em 2008. Seu enredo se passa durante a Segunda Guerra Mundial, retratando uma inesperada amizade entre um alemão e um judeu.

O livro:

"Então Shmuel fez algo que nunca havia feito antes: ele ergueu a parte da cerca como sempre fazia quando o amigo que trazia comida, mas desta vez ele estendeu a mão por baixo e a manteve lá, esperando até que Bruno fizesse o mesmo. Os dois meninos apertaram as mãos e sorriram um para o outro.
Foi a primeira vez que eles se tocaram."
A história desenvolvida por John Boyne começa a partir do momento em que Bruno descobre estar se mudando de Berlim devido ao trabalho do pai. Entretanto, tudo o que ele sabe sobre a função exercida pelo chefe da família é que o pai possui um trabalho importante para a pátria, ajudando a reerguê-la de sua humilhação passada e construindo a história; e que o "Fúria", personagem referente ao líder do Nazismo durante a 2º Guerra, tem grandes planos para ele. 
Pouco empolgado com a ideia de viver em Haja-Vista - nome dado à sua nova residência - pelo "futuro previsível", vez que não possui companhia alguma além de sua irmã, Gretel, considerada um Caso Perdido, Bruno acaba sendo instigado pela estranha visão da janela de seu quarto: um campo com diversas casas, repleto soldados e pessoas que passam o dia usando pijamas listrados.
Sem ter ideia alguma de quem são os habitantes daquele misterioso lugar ou dos grandes acontecimentos ao seu redor, o protagonista é levado por sua inocência e curiosidade ao estranho Campo de Haja-Vista em uma de suas explorações, formando uma amizade inimaginável com um judeu, Shmuel. Tal companhia acabaria sendo a sua âncora naquele estranho lugar, completando o seus dias e fazendo-o confrontar o que lia em livros e ouvia - afinal, como poderia uma criança tão inocente e amedrontada quanto ele ser o monstro que todos falavam?
"Não terei com quem conversar depois que você se for", Shmuel acrescentou.
"Não", disse Bruno. Ele quis acrescentar as palavras "Eu também vou sentir sua falta, Shmuel" à sua frase, mas percebeu que estava um pouco envergonhado para dizê-las.
Livros sobre guerras históricas estão constantemente sendo incluídos em minhas listas (de leitura, de desejados...), entretanto nenhum me encantou tanto quanto "O menino do pijama listrado". John descreveu crimes de guerra, a ideologia nazista, a manipulação de uma raça inteira e o genocídio de outra sob o ponto de vista de um ser inocente, que, com suas suposições e muita maturidade para a idade, acabou encantando ao público por transformar um livro de tema revoltante em algo singelo.
Escrito em terceira pessoa, o livro dedica cada capítulo a um novo tema: desde Maria, a "criada muito bem paga" que é considerada da família; ao trabalho do pai e às fugas de Bruno. Pouco a pouco, observamos a mãe abandonar sua postura de esposa feliz e apoiadora, vendo-a degradar-se até se transformar em uma mulher solitária e depressiva, que não suporta o peso de saber o trabalho que seu marido exerce: o controle de um campo de concentração. Testemunhamos, pelos olhos de Bruno, a agressão e desprezo ao inimigo por meio de linhas em que os soldados - especialmente Tenente Kotler - acabam "irritando-se" com Pavel, um dos serventes da casa.
O único ponto em falso presente na escrita, foi a falta de emoções. Boyne ao guiar-se pela mente de uma criança de nove anos e esquecer de aprofundar o que os familiares - incluindo a revolta da avó pela posição do pai de Bruno - sentiam, tornou o romance um tanto superficial.
Ao longo do desenvolvimento, há a repetição de diversos termos que ressaltam a severidade e as regras estabelecidas dentre aquela família, principalmente quanto à ausência do pai.

Bruno sentiu um impulso de abraçar Shmuel, apenas para mostrar-lhe o quanto gostava dele e como fora bom conversar com ele durante o ano que passara ali. 
Shmuel também sentiu um impulso de abraçar Bruno, apenas para agradecer-lhe pelas incontáveis gentilezas, e pela comida que trazia de presente, e pelo fato que iria ajudá-lo a procurar pelo pai.
Como esperado, o fim da história acabou tornando-se uma lição para todos: aos leitores, aos soldados e principalmente para a família de Bruno. De forma trágica e pura, as palavras de Boyne mostraram que mesmo em momentos fundamentais, uma amizade verdadeira e uma mão estendida são as únicas coisas que importam. 
"E então o cômodo ficou escuro e de alguma maneira, apesar do caos que se seguiu, Bruno percebeu que ainda estava segurando a mão de Shmuel entre as suas e nada no mundo o teria convencido a soltá-la." 

 

O filme:

Apesar de 94 minutos serem pouco para retratar com fidelidade todos os aspectos da história, a adaptação de "O Menino do Pijama Listrado" foi um complemento à obra original, escrita por John Boyne. Dirigido por Mark Herman, o filme aprofundou e retratou com realismo o tema abordado, tendo todos os personagens bem explorados e uma melhor visualização da manipulação, inocência e revolta sentidas pelos personagens.
Um personagem que me surpreendeu foi Elsa (Vera Farmiga), a mãe de Bruno. Sendo retratada como uma pessoa apaziguadora e um tanto fútil no começo do livro, a essência da personagem foi completamente alterada, de modo que ela se tornasse uma espécie de heroína na adaptação.
Apesar de não ter grande destaque, já que os roteiristas queriam que o filme fosse totalmente ligado aos dois amigos, a esposa de Ralf mostrou-se alguém cujos princípios divergiam com a política do país. Sem saber a verdadeira natureza do trabalho do marido - descoberta ao longo da trama -, a personagem acabou mostrando sua revolta e insubordinação com a forma com que os judeus eram tratados. Seu papel na trama fora fundamental para salientar o quão desumanos foram os crimes de guerra, o que contribuiu para um final extremamente fiel e, no entanto, mais vívido e emocionante do que o original. 

"A infância é medida por sons, 
aromas e visões, antes que o tempo 
obscuro da razão se expanda."

 Apesar de normalmente preferirmos a obra original, afirmo que o filme acabou expandindo a mente do telespectador e recontando a história de forma mais emocionante e completa do que o livro.
Por meio das aulas de história e geografia, a discriminação e ódio pelos judeus tornam-se explícitas e são verdadeiramente explicadas, gerando questionamentos explícitos por parte de Bruno (Asa Butterfield) - algo que fez falta na obra original. Outro ponto visual que prendeu o público foi o modo como Shmuel (Jack Scanlon) expressava-se predominantemente por meio de gestos e expressões. Palavras não conseguiriam explicar seu medo e tristeza (apesar de ser descrito como "os olhos mais tristes que Bruno já vira", um maior destaque foi dado ao alemão durante o livro, o que deixou a desejar), de forma que o ator utilizou de seu próprio corpo para expressar a tortura sofrida pelo menino judeu.
O filme não possui muitos efeitos especiais e baseou-se em apenas três cenários: a Casa de Berlim, a Casa de Haja-Vista e o próprio Campo de Haja-Vista. Entretanto, todos foram produzidos conforme a época retratada, e nada nos faria duvidar de que os personagens realmente estavam em 1940. 
Extremamente bem produzido, explorado e sem excessos ou falhas, a adaptação de "O Menino do Pijama Listrado" foram os noventa e quatro minutos mais emocionantes, cinematograficamente falando, da minha vida. Caso você possua um pé em falso com o livro, arrisque e assista ao filme antes: você se encantará pela história de forma ainda mais plena.

Autor: John Boyne || Diretor: Mark Herman
Obra: O Menino do Pijama Listrado.
Páginas: 186 || Duração: 1h e 34min.
Editora: Companhia das Letras || Distribuidora: IMAGEM FILMES
Classificação (livro): 4/5 || Classificação (filme): 5/5 ()


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