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Nome: O tigre na sombra.
Autor: Lya Luft.
Páginas: 128
Editora: Record
Classificação: 5/5 ()

O Tigre Na Sombra é um romance escrito pela Lya Luft, que, ao contrário do que muitos pensam, não retrata a história de amor de dois jovens, mas sim a vida de Dolores e Dôda, que, no caso, são a mesma pessoa. 
"A mesma pessoa? Dani, como assim?"

Muitas vezes, nós somos partidos em dois. Em muitos. Temos nosso lado sonhador, apaixonado e nosso lado sombrio, realista. Esse romance nos remeterá a essa realidade, a como uma mulher, que não era querida pela mãe por ter um defeito na perna, lidou com essas duas partes conflitantes de si em cada momento de sua vida.
Dolores é a menina do espelho, a menina torta, que sempre racionaliza as coisas e vê tudo como é -- sem criar expectativas, sem temer, sem aquela eterna ingenuidade. Já Dôda (como é chamada desde pequena) é a sonhadora, a boba e romântica. Aquela que sonha com o primeiro beijo, com o final feliz, com a família perfeita, com a aprovação da mãe e o conquistar o posto de querida, que já é ocupado pela irmã perfeita, Dália.
A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas. A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, numa vida paralela a isso que parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam. 
A partir daí, acompanhamos, em poucas linhas, como cresceu, amadureceu, e aos poucos deixou um de seus lados guardado. Vemos as decepções da vida de Dôda, como foi rejeitada pela família e pelo mundo, como se rebelou contra as normas, como quis fazer a diferença. Como se apaixonou e se magoou, como foi traída de todas as formas possíveis, como quis mudar.
Como quis consertar o mundo.
Memórias ou invenções, palavras, quem disse isso, quem disse aquilo? Voz de homem, de mulher? Voz de criança: o anel que tu me deste. Mas foi minha vida que se quebrou. 
A escrita é fluída, porém complexa e, em determinados pontos, sombria. Ler este romance é como mergulhar no mais profundo oceano sem chance de retorno à superfície. Apesar de curto e rápido, te faz questionar seus padrões e como nós buscamos por essa aceitação, pelo amor de outros, sem nos amarmos. 
Na maior parte do livro, me identifiquei com Dôda - o lado sonhador. Afinal, é tão fácil esquecer-se da realidade e perder-se num livro, criando e recriando seu futuro. 
Preciso admitir que nunca havia lido nada da Lya, mas após este romance estou obcecada por suas obras. O modo como ela nos apresenta ao cotidiano, alternando entre tempo em espaço, ignorando a norma padrão de histórias contadas banalmente, faz com que você se pergunte por que nunca leu algo assim antes, tamanha a exuberância!
Mas apesar de toda a tristeza eu finjo que não ouvi.
Ainda não, ainda não.
Pois ainda existe a vida.
Encantador, profundo e rico: essa é a minha descrição sobre o enredo e a escrita de Lya Luft.

Daniele Almeida.


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